Mahatma Gandhi, anantha-he!

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A mística de um santo não-cristão.

Marcelo Barros

Todo final de mês de janeiro, na Índia, multidões peregrinam à capital, Nova Délhi. Ali, visitam uma laje de mármore negro, colocada no local onde, no dia 30 de janeiro de 1948, foi assassinado o Mahatma Gandhi. Levam flores, sobretudo pétalas de rosas.

Na fila estão homens, mulheres e muitas crianças. Os adultos gritam: “Mahatma Gandhi!”, e as crianças respondem: “Anantha-he, anantha-he!”, isto é, “Para sempre, para sempre!”.

 

No cinqüentenário da morte desse grande líder, santo e profeta, convido você, leitor, a voltar o coração para a Índia e, onde quer que esteja, dizer comigo: “Mahatma Gandhi, anantha-he!”.

Neste Brasil tão sofrido – onde são raros os líderes políticos de solidez espiritual e que se entregam verdadeiramente ao povo –, faz bem a gente se voltar para Gandhi, o Mahatma (= Grande Alma), desejando que o exemplo e a mensagem dele perdurem para sempre.

E por falar em mensagem, Gandhi não concordaria comigo. Diria que não tem mensagem, que sua mensagem é sua vida.

Mas como resumir sua vida numas poucas linhas?

Gandhi deu à sua autobiografia o título de “História das minhas experiências com a Verdade”. Ele sabia que essa verdade se chama Deus: “Tudo o que eu faço é na busca de Deus. Anseio por ver a Deus face a face. O Deus que eu conheço se chama Verdade”.

 

Mohandas Gandhi nasceu e cresceu numa Índia dominada pela Inglaterra. Advogado formado em Londres, viveu um tempo na África do Sul e depois retornou à pátria. Ali, desenvolveu um método para conquistar a independência do país e libertar sua gente da pior escravidão, a “alienação e a superficialidade interior”.

Protestou contra o sistema de castas que, em nome da religião, considera os mais pobres como párias, impuros. “A dor desses meus irmãos me transforma”, disse.

De fato, a solidariedade transformou a vida de Gandhi, e isso não apenas por uma opção de tipo puramente político. Era uma opção de fé, vivida no hinduísmo.

Tornou-se um místico, reconhecido no mundo inteiro como Mahatma, a Grande Alma. Nunca iniciava uma luta sem um jejum que, às vezes, tomava a forma de greve de fome, sem deixar de ser um ato de oração pessoal. Dizia: “Não é possível viver a espiritualidade no egoísmo. Não é possível salvar a si mesmo sem salvar os outros”.

 

O método de trabalho de Gandhi consistia em duas atitudes interiores: a satyagraha e a ahimsa. A primeira era a desobediência civil: se uma lei é injusta, não se deve obedecê-la. Trata-se de um compromisso do crente com a verdade.

Mas como fazer isso?

Através da não-violência ativa, que é a segunda atitude. Alguém só pode dizer que é espiritual quando consegue arrancar de si mesmo toda violência. Não só a violência física, mas também verbal, mental e emocional. Libertar-se do próprio egoísmo, da avareza e das paixões.

Gandhi fazia isso por meio da oração, que é, como ele dizia, “a respiração do espírito”.

Para orar, os hindus exigem calma e silêncio. Acontece que o Mahatma tinha um temperamento inquieto e não conseguia ficar imóvel. Quando tentava, o braço coçava, o cotovelo doía, a barriga roncava. Depois de muito tentar, descobriu “a roca do calmo pensar”: tomava um tear e, enquanto tecia, controlava a respiração, repetindo um mantra (invocação a Deus) e orando.

 

Fez muitas peregrinações, como é tão do gosto do povo. Tinha 77 anos de idade e ainda percorreu, a pé e descalço, muitos vilarejos de Bengala, Bihar e Punjab, pedindo a união entre hindus e muçulmanos.

Disposto a trabalhar por essa unidade, decidiu habitar num bairro muçulmano de Nova Délhi. Ali, foi assassinado por um fundamentalista de sua própria religião. Não eram poucos os que não concordavam com o seu ecumenismo, considerando-o um traidor do hinduísmo. A última palavra do Mahatma foi “He Hama!”, “Ó Deus!”.

Celebrando a memória desse profeta da não-violência, convido você, em sua busca de Deus, a integrar esse amor à verdade e à paz.

E também o conselho de Gandhi: “Lembre-se das pessoas mais pobres que você conhece, dos seres que você já viu mais abandonados. Pergunte se o ato que você planeja ou o seu modo de viver é de algum modo proveitoso para essas pessoas. Se for, nesses atos você encontrará a Deus”.

– Mahatma Gandhi!

– Anantha-he!

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Marcelo Barros é monge beneditino em Goiás e escritor, com vinte livros publicados. O último deles é o romance A secreta magia do caminho (Record-Nova Era, 1997).

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